ENTON, tenho dois personagens em especial que AMO criar diálogos e anoto alguns em um caderno pra não esquecer depois. Minha trama (Arta) não é lá romantica ou dramática nesse gênero, mas prefiro dar personalidades em falas do que em narrativas. Como disse um professor de literatura que eu tive "não descreva que ele é forte, faça ele quebrar umas mesas e uns pescoços". Esses diálogos, então, não definem como é a história em gênero, apenas mostra traços de personalidade, já que a principio todos tem uma e são humanos, sabe? Precisam converçar também.
Essa parte da história é narrada em primeira pessoa, simplesmente por que é mais fácil pra mim por conta do personagem-narrador. Hã? Deixa. As três cenas são desconexas, podendo ter rios de história entre elas, mas ainda entendíveis.
Tá, vou colocar num corte três diálogos que criei ontem ♥ Leia se quiser, querido.
DIÁLOGO I (Arta : Ontem)
A personagem-narradora foi buscar na casa de sua amiga, Hilay, uma caixa que a amiga esqueceu de levar para o serviço de vigia. Com as chaves dela, ao entrar em casa vê Aine, no caso ainda namorado de Hilay, deitado no sofá da sala com uma outra mulher (qualquer). A narradora faz vista grossa, pergunta ao rapaz onde estaria a caixa e ele responde que no armário do quarto no andar de cima. A narradora sobe para o quarto e logo em seguida Aine. Aine é um (profissionalmente falando) respeitado médico e a narradora já fez parte de uma espécie de FBI. Ambos tem, nessa altura da história, entre trezentos e quatrocentos anos (apenas os esses dois). Por motivos não importantes agora.
Como disse, a cena é praticamente única, já que romances e enlaces não são o tema principal da trama. Mesmo assim é uma cena muito importante pro desenrolar dela.
- Ah, você está com uma blusa, agora.
- Era essa a caixa?
- Sim, valeu. Seria o último lugar que eu ia procurar. Onde está sua amiga? Eua ia me apresentar.
- Já foi embora. Escuta, sobre isso... eu posso explicar!
- Estou ouvindo. Explique.
- Você não vai contar para Hilay, vai?
- Se você não contar, eu conto.
- Olha, eu apenas estava no bar, e ela também, e daí...
- Posso não ter suas habilidades detectoras de mentira, mas sei que você não pode beber. Ou já estaria morto.
- Ah, você lembra disso.
- Lembro de tudo.
- Não, apenas ela estava bêbada. E nada melhor do que o que você fez para deixar alguém sóbrio.
- Recomende isso para as esposas e amigas de seus pacientes bêbados. E então se aproveitou da sua amiga que nem sabe o nome?
- É, eu não sei o nome dela... Mas... isso não faz sentido, por que tenho que me justificar para você? Se Hilay tivesse entrado na sala ao invés de você eu estaria menos nervoso...
- Você não ama Hilay?
- Amo! Claro que amo! É só que... Ah, escuta, você nunca traiu? Deve saber o que é isso!
- Nunca.
- Vamos! Isso é impossível! Você teve uma vida muito chata se nunca traiu!
- Assim evitei ter filhos fora do casamento, ao contrário de você.
- E nunca teve vontade de trair?
- Eu...
- Você?
- Não. Nunca.
- Olha, a psicologia diz que você pode trair mesmo amando alguém. Vamos lá! Não vou contar para Bailey que você anda olhando para ou...
- Então o que te faz não ter problemas com... Ah, não me diga que está acostumado a ser pego em flagrante!
- Foi assim que me divorciei da terceira esposa.
- Aine! Você tem praticamente quatrocentos anos! Como ainda age tão irresponsávelmente como se ainda estivesse na puberdade!?
- É o segredo da vida eterna.
- Você está tremendo. Não está olhando pra mim. O que houve?
- Não sei... eu... não consigo encarar...
- Está com medo que eu conte pra Hilay?
- Não, acho que não é esse o problema. Hilay já aprendi como agradar...
- Então você quer Hilay só pra ter uma mulher para brincar quando não houver nenhuma bêbada?
- NÃO! Eu amo Hilay! Quero ela comigo!
- Por que está tremendo? O que foi? Responda!
- Desculpe, estou acostumado a fazer as perguntas.
- E eu a interrogar. Posso usar tecnicas de tortura....
- Não, tudo bem. Só estou suando frio um pouco. Sério.
- Se não é medo de perder Hilay, nem nervosismo de ser pego, pra que todo esse pavor?
- Não sei! NÃO SEI! Não faz sentido! Não tenho motivos pra não conseguir encarar você, já aconteceu tantas vezes isso! Não tenho coragem, ao contrário, tenho medo de ver como você me ollha, e não como Hilay vai me olhar. Não faz sentido.
- Então você tem medo de mim. De como eu vou reagir. Você tem medo que eu... que eu não... Céus, que eu não esteja mais com você?
- Acho que Hilay está esperando a caixa. Não se preocupe, eu vou contar.
- Você não faria isso normalmente.
- Não, mas você... Olha, apenas vai logo, tá?
- Se algo acontecer a Hilay...
- Acho que ela não precisa de um irmão mais velho.
- ... você vai ter que acertar comigo. Ela ama você como nunca seria capaz de amar a si mesma ou qualquer outro. Se acontecer algo, saberei que foi você, e assim você terá seu remédio para bebedeiras.
- Deve ser por isso que tenho medo de você.
- Ela vai cobrir o noturno, hoje. Volta ao meio-dia, amanhã. Até lá mantenha distância dos bares.
- Certo. Obrigado.
- Fique esperto.
Diálogo II (Arta : Ontem)
- Vini? - Disse a voz de Ai, dessa vez do meu lado - o que faz aqui?
- Hoje começa minha folga - Respondi desconcentrada.
- Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem. Está meio pálida, o que...
- Ai, você salva tantas vidas! Eu apenas as tiro... - Me virei pra ele, mas tinha um peso nas minhas costas que não deixava eu olhar acima daqueles joelhos altos - Eu mato aqueles que ocasionalmente você dedicou horas para salvar a vida. Ou então você tem que cuidar de ferimentos mortais causados por mim em pessoas que podem ser até inocentes vítimas.
Ele saiu detrás da porta e me embrulhou num abraço quente de um friorento no final do outono. Era uma emoção nova, então chorei. Provavelmente acabei molhando o peito das tantas blusas que ele usava, porque percebeu que eu chorava. Ele se apoiou na mesma parede que eu, deixou que meu rosto continuasse encharcando as blusas, colocou carinhosamente a boca e o nariz na minha cabeça, na sua forma de consolo, e desajeitadamente a mão no bolço da calça.
- Já falamos sobre isso - senti seu halito quente passar pelos meus fios de cabelo semi-molhados - Você não tem como evitar. Está seguindo ordens para alcançar seu objetivo. Não é isso que está encomodando você.
A habilidade dele de supor o que acontece me irritava dependendo da situação, mas não estava disposta a ficar irritada. Também me sentia uma idiota, parada na parede do hall de espera do hospital, minhas mãos pendiam soltas e meu peso todo era sustentado pelo peito molhado de um médico alto e esquelético. Nada que ajudasse a melhorar meu animo.
- Eu não posso doar meus órgãos, Ai. Nem sangue - minha voz saiu tremida, o que não era planejado - Nem depois de finalmente morta vou poder ajudar alguém.
- Então é esse o ponto - ele suspirou esquentando minha cabeça toda, mas sua voz não continuou tão aliviada quanto talvez ele pretendesse - Não sei se ajuda, mas os medicamntos que tomo pra controlar a rejeição dos meus próprios órgãos são venenosos pra qualquer outra forma de vida. E já que não pretendo morrer antes de você, ficamos na mesma situação.
- Quando eu morrer você será dissolvido pelo seu veneno e eu... serei transformada em pó?
- Talvez em esqueleto dado a quantidade de leite que você toma.
Nós rimos. Ai talvez de mim, fiz um barulho bizarro entre uma risada, uma fungada e um soluço.
- Ainda assim você salva vidas, já faz muito mais do que eu - e isso me encomodava. Não como orgulho, como culpa.
- Então aproveite bem o treinamento médico do exército para poder ajudar os outros não só matando.
- Adoro essa sua sutileza com as palavras. É assim que dá as más notícias aos familiares dos seus pacientes?
- Por algum motivo consigo ser mais delicado com eles do que com você. Nosso momento romantico não durou dois minutos sem que você soltasse uma piada - Apesar das palavras, ele ria - só tenho que conferir os exames de um paciente e estarei livre para o almoço. Me espera aqui?
- Certo, vi um restaurante de massas a umas cinco quadras daqui enquanto vinha.
- Achei que fosse querer os pratos prontos do restaurante do hospital.
- E ter que comer feijão? O que é uma lasanha ao lado de um feijão?
- Hoje começa minha folga - Respondi desconcentrada.
- Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem. Está meio pálida, o que...
- Ai, você salva tantas vidas! Eu apenas as tiro... - Me virei pra ele, mas tinha um peso nas minhas costas que não deixava eu olhar acima daqueles joelhos altos - Eu mato aqueles que ocasionalmente você dedicou horas para salvar a vida. Ou então você tem que cuidar de ferimentos mortais causados por mim em pessoas que podem ser até inocentes vítimas.
Ele saiu detrás da porta e me embrulhou num abraço quente de um friorento no final do outono. Era uma emoção nova, então chorei. Provavelmente acabei molhando o peito das tantas blusas que ele usava, porque percebeu que eu chorava. Ele se apoiou na mesma parede que eu, deixou que meu rosto continuasse encharcando as blusas, colocou carinhosamente a boca e o nariz na minha cabeça, na sua forma de consolo, e desajeitadamente a mão no bolço da calça.
- Já falamos sobre isso - senti seu halito quente passar pelos meus fios de cabelo semi-molhados - Você não tem como evitar. Está seguindo ordens para alcançar seu objetivo. Não é isso que está encomodando você.
A habilidade dele de supor o que acontece me irritava dependendo da situação, mas não estava disposta a ficar irritada. Também me sentia uma idiota, parada na parede do hall de espera do hospital, minhas mãos pendiam soltas e meu peso todo era sustentado pelo peito molhado de um médico alto e esquelético. Nada que ajudasse a melhorar meu animo.
- Eu não posso doar meus órgãos, Ai. Nem sangue - minha voz saiu tremida, o que não era planejado - Nem depois de finalmente morta vou poder ajudar alguém.
- Então é esse o ponto - ele suspirou esquentando minha cabeça toda, mas sua voz não continuou tão aliviada quanto talvez ele pretendesse - Não sei se ajuda, mas os medicamntos que tomo pra controlar a rejeição dos meus próprios órgãos são venenosos pra qualquer outra forma de vida. E já que não pretendo morrer antes de você, ficamos na mesma situação.
- Quando eu morrer você será dissolvido pelo seu veneno e eu... serei transformada em pó?
- Talvez em esqueleto dado a quantidade de leite que você toma.
Nós rimos. Ai talvez de mim, fiz um barulho bizarro entre uma risada, uma fungada e um soluço.
- Ainda assim você salva vidas, já faz muito mais do que eu - e isso me encomodava. Não como orgulho, como culpa.
- Então aproveite bem o treinamento médico do exército para poder ajudar os outros não só matando.
- Adoro essa sua sutileza com as palavras. É assim que dá as más notícias aos familiares dos seus pacientes?
- Por algum motivo consigo ser mais delicado com eles do que com você. Nosso momento romantico não durou dois minutos sem que você soltasse uma piada - Apesar das palavras, ele ria - só tenho que conferir os exames de um paciente e estarei livre para o almoço. Me espera aqui?
- Certo, vi um restaurante de massas a umas cinco quadras daqui enquanto vinha.
- Achei que fosse querer os pratos prontos do restaurante do hospital.
- E ter que comer feijão? O que é uma lasanha ao lado de um feijão?
Diálogo III (Arta : Ontem)
Quando olhei para onde o enfermeiro me apontou vi sim Ai. Ele e uma ruiva de olhos negros converçando no meio do corredor. Ai estava conseguindo ser discreto e parecia até que por ele os dois estavam tendo uma converça profissional. Mas a médica ruiva só faltava se atirar para ele. Literalmente.
- Ai? - Perguntei enquanto me aproximava e tive que conter uma gargalhada. Ai parecia aliviado em me ver, aliviado que alguém (quem quer que seja, mas provavelmente ainda melhor se eu) tenha chegado para interromper a converça com a mulher. Cena que, convenhamos, até Sumue pagaria para ver, porque nunca mais iria se repetir. Aine Arisu correndo de uma mulher?
- Vini! Céus, já era hora! - disse um Aine radiante - Essa é minha nova colega, Glassi, da ortopedia.
- É sim - respondeu ela me olhando por dois segundos e depois voltando para Ai - Eu reconheci na hora o famoso médico!
- Ela começou a três dias - Ai explicava pra mim em tom definitivamente nervoso.
- Você não me respondeu se vai querer sair para almoçar.
- Não... Olha, eu...
- Ou quem sabe uma noite, um jantar...
- Você já deve ter com quem sair...
- Cancelo tudo se você disser que vai me contar suas histórias.
- Ah... Estou honrado, sério. Mas já estava de...
- Seu amigo não vai se importar de marcar esse almoço para outro dia.
Foi só quando percebi que a ortopedista achava que eu era um homem. O que eu tinha que fazer? Andar com uma placa no pescoço? Talvez eu devesse usar o peitoral de ferro da roupa do exército. De qualquer forma, Ai pareceu mais ofendido do que eu com aquele comentário.
- Não, olha só. Não que...
- Talvez você prefira um jantar. As noites são mais longas.
- Você não...
- Não se preocupe, meu consultório só abre às dez e minha próxima consulta é às duas.
- Escuta. Me escuta! Você é uma jovem muito bonita, mas é que...
- Mas é que...? - Ela agarrou a gola do jaleco de médico do Ai e forçava a cabeça dele a descer a uma altura que ela alcançasse. E esse gesto é digno de ser narrado porque foi importante, quando ela fez isso pude lembrar que eu não era uma espectadora, que eu podia intervir.
- Ah, desculpe - disse eu quando a cabeça dos dois estavam a uns dez centímetros - acho que ainda não me apresentei. Sou Eveneeze, noiva de Aine. Que por acaso é o cara que você está agarrando.
Ela olhou pra mim com a legítima cara de quem levou um susto. Olhou novamente para Ai que tirou o cabelo de frente da orelha para mostrar o brinco-aliança. Ela olhou pra mim e repeti o gesto de Ai. Como se ainda não acreditasse voltou a encarar o rosto do médico a dez centímetros do dela.
- Não sabia que era noivo - ela disse num tom que era mais uma desculpa pela própria pouca informação.
- Sim, sou. E minha noiva está em treinamento militar - respondeu Ai recuperando o tom confiante de sempre.
Bom, aí ela me encarou mais uma vez.. Dessa vez com uma expressão de puro pânico. Para curtir o momento aproveitei e tirei meu colar com a estrela militar de seis pontas. Ela demorou alguns segundos seguindo o balanço do colar com os olhos e num choque de lembrança largou o jaleco de Ai e virou-se de costas para nós.
- Ah, certo... Bom, se você não quer, então... Ah, nos encontramos por aí, acho... Quer dizer, nos corredores, sabe? Trabalho. Ir. Bom almoço.
E saiu em passos largos, quase correndo, sem olhar pra onde ia.
- Ela vai parar no depósito se continuar seguindo reto - eu disse rindo da situação.
- Você podia ter dito aquilo antes - disse Ai se encostando no pilar atrás dele e respirando alívio.
- Não teria graça - e eu sem conter o riso.
- Ela parecia um animal faminto, que modo selvagem de fazer as coisas...
- É assim que você faz com as meninas que encontra por aí.
- Ela se ofereceu para me ajudar a trocar a roupa de cirurgia! Pra falar o mínimo dos últimos dias. Definitivamente não vou tão rápido. Nem tão selvagelmente desesperado.
Olhei pra ele com um sorriso no canto da boca. Era verdade, Ai fazia suas conquistas por saber escolher as palavras certas, por saber como agir sem espantar ninguém, sutilmente e de modo quase natural. Ao contrário da ortopedista.
- Olha, você viu! - falava ele - foi ela que se atirou pra mim!
- É, - respondi olhando o final do corredor que Glassi tinha acabado de sumir - e isso me preocupa mais do que se fosse o contrário.
- Podemos sair logo? Os pacientes estão olhando e aquela enfermeira fofoqueira está vindo para cá e certamente já sabe "da última".
- Ai? - Perguntei enquanto me aproximava e tive que conter uma gargalhada. Ai parecia aliviado em me ver, aliviado que alguém (quem quer que seja, mas provavelmente ainda melhor se eu) tenha chegado para interromper a converça com a mulher. Cena que, convenhamos, até Sumue pagaria para ver, porque nunca mais iria se repetir. Aine Arisu correndo de uma mulher?
- Vini! Céus, já era hora! - disse um Aine radiante - Essa é minha nova colega, Glassi, da ortopedia.
- É sim - respondeu ela me olhando por dois segundos e depois voltando para Ai - Eu reconheci na hora o famoso médico!
- Ela começou a três dias - Ai explicava pra mim em tom definitivamente nervoso.
- Você não me respondeu se vai querer sair para almoçar.
- Não... Olha, eu...
- Ou quem sabe uma noite, um jantar...
- Você já deve ter com quem sair...
- Cancelo tudo se você disser que vai me contar suas histórias.
- Ah... Estou honrado, sério. Mas já estava de...
- Seu amigo não vai se importar de marcar esse almoço para outro dia.
Foi só quando percebi que a ortopedista achava que eu era um homem. O que eu tinha que fazer? Andar com uma placa no pescoço? Talvez eu devesse usar o peitoral de ferro da roupa do exército. De qualquer forma, Ai pareceu mais ofendido do que eu com aquele comentário.
- Não, olha só. Não que...
- Talvez você prefira um jantar. As noites são mais longas.
- Você não...
- Não se preocupe, meu consultório só abre às dez e minha próxima consulta é às duas.
- Escuta. Me escuta! Você é uma jovem muito bonita, mas é que...
- Mas é que...? - Ela agarrou a gola do jaleco de médico do Ai e forçava a cabeça dele a descer a uma altura que ela alcançasse. E esse gesto é digno de ser narrado porque foi importante, quando ela fez isso pude lembrar que eu não era uma espectadora, que eu podia intervir.
- Ah, desculpe - disse eu quando a cabeça dos dois estavam a uns dez centímetros - acho que ainda não me apresentei. Sou Eveneeze, noiva de Aine. Que por acaso é o cara que você está agarrando.
Ela olhou pra mim com a legítima cara de quem levou um susto. Olhou novamente para Ai que tirou o cabelo de frente da orelha para mostrar o brinco-aliança. Ela olhou pra mim e repeti o gesto de Ai. Como se ainda não acreditasse voltou a encarar o rosto do médico a dez centímetros do dela.
- Não sabia que era noivo - ela disse num tom que era mais uma desculpa pela própria pouca informação.
- Sim, sou. E minha noiva está em treinamento militar - respondeu Ai recuperando o tom confiante de sempre.
Bom, aí ela me encarou mais uma vez.. Dessa vez com uma expressão de puro pânico. Para curtir o momento aproveitei e tirei meu colar com a estrela militar de seis pontas. Ela demorou alguns segundos seguindo o balanço do colar com os olhos e num choque de lembrança largou o jaleco de Ai e virou-se de costas para nós.
- Ah, certo... Bom, se você não quer, então... Ah, nos encontramos por aí, acho... Quer dizer, nos corredores, sabe? Trabalho. Ir. Bom almoço.
E saiu em passos largos, quase correndo, sem olhar pra onde ia.
- Ela vai parar no depósito se continuar seguindo reto - eu disse rindo da situação.
- Você podia ter dito aquilo antes - disse Ai se encostando no pilar atrás dele e respirando alívio.
- Não teria graça - e eu sem conter o riso.
- Ela parecia um animal faminto, que modo selvagem de fazer as coisas...
- É assim que você faz com as meninas que encontra por aí.
- Ela se ofereceu para me ajudar a trocar a roupa de cirurgia! Pra falar o mínimo dos últimos dias. Definitivamente não vou tão rápido. Nem tão selvagelmente desesperado.
Olhei pra ele com um sorriso no canto da boca. Era verdade, Ai fazia suas conquistas por saber escolher as palavras certas, por saber como agir sem espantar ninguém, sutilmente e de modo quase natural. Ao contrário da ortopedista.
- Olha, você viu! - falava ele - foi ela que se atirou pra mim!
- É, - respondi olhando o final do corredor que Glassi tinha acabado de sumir - e isso me preocupa mais do que se fosse o contrário.
- Podemos sair logo? Os pacientes estão olhando e aquela enfermeira fofoqueira está vindo para cá e certamente já sabe "da última".
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Acreditem quando eu digo que passar a limpo é um saco.
Então, talvez eu tenha que me livrar um pouco do vício das reticências. E parar de criar cenas pra esses personagens, tenho outras coisas para criar que tem mais urgencia.
Ah! Se você leu até aqui, obrigada mils!
:)